Diana tinha pressa. A chuva caia com vontade sobre Sororia aquela noite e seus afazeres ainda eram muitos. Corria, apesar da delicadeza que a vida palaciana a exigia ter, sua Semíramis estaria a sua espera em breve. Atraso não era algo que Diana conhecesse e, especificamente naquela noite, atraso não era algo que Diana pudesse vir a conhecer. Havia um plano, arquitetado pela própria Semíramis Anabel junto às suas serviçais mais confiáveis e a pontualidade era algo imprescindível para o seu êxito. O vento forte que parecia querer levar consigo o corpo esguio da criada, os constantes respingos trazidos por este que vinham contra os seus óculos e atrapalhava-lhe a visão, o guarda-chuva que aparentava estar mais sob o controle da ventania do que dos seus frágeis punhos. Nada impediria o disciplinado rigor de Diana. Ou, ao menos fora o que ela pensou.
Um barulho alto adveio de um beco e este, anunciava um rebuliço com as coisas que lá normalmente são despejadas: sons de metal em diferentes timbres, objetos como cerâmica sendo espatifados, rolar de pedras. E um miado. Um miado alto que parecia suplicar por socorro e, talvez, se não fosse por este último som, Diana nunca teria tomado a decisão que tomou naquele instante. Isso é algo que uma pessoa que tem grande apreço pelos animais em seu coração compreende imediatamente. Para aqueles mais desprovidos de tal apreço, apenas lhes digo que um amante dos animais, ao se deparar com algum que se encontre necessitado de socorro, tem uma resposta totalmente passional, instantânea, que independe de conceitos pré-estabelecidos pelo indivíduo e de sua racionalidade. E foi tomada por este sentimento que Diana desviou-se de seu caminho por um momento.
Com o corpo contra a parede, em postura cautelosa, Diana caminhou lentamente, ainda que precisasse realizar alguns movimentos abruptos para impor-se contra os empurrões dos vendavais. Com os pensamentos inteiramente voltados para o que haveria de encontrar, descuidou-se do manejo do guarda-chuva e este se deixou ir com a tempestade, evento que surpreendeu a Diana e a trouxe para fora de seus pensamentos fixos por um instante. E, de fato, não passara de um instante. Ela sequer sentia a chuva, impetuosa, castigar sua pele. Esticou o pescoço pouco a pouco.
Ela viu incontáveis bugigangas quebradas, amassadas, dispostas em montes irregulares e bagunçados. E viu o alvo de sua preocupação. Um felino, pequeno, de pelagem rajada em tons de mel e de laranja, certamente seria um belo exemplar se sua aparência não estivesse tão maltratada como estava.
Os movimentos cuidadosos de Diana foram finalmente deixados de lado. Ela correu em direção ao bichano e ajoelhou-se diante dele, sem se dar conta dos cacarecos que sujavam e faziam pequenos cortes em seu vestido. Com delicadeza, procurou um sinal de vida por parte do animal. Este, no entanto, encontrava-se totalmente inerte e desfalecido em meio à imundície. Diana o segurou e o trouxe para o seu colo. Sacudiu o gato diversas vezes sem conseguir obter qualquer resposta. A cada novo gesto brusco ignorado, esvaia-se a esperança. Ele não reagia, não se movimentava, não vivia. Os sons do temporal pesavam como um silêncio no coração da jovem serviçal. Lágrimas disfarçadas entre a chuva que lhe molhava o rosto ameaçavam transbordar de seus olhos.
A negação cedia à realidade. Diana levantou-se com o gato em seus braços. Ao menos que seu corpo descansasse em um lugar mais valoroso. Começou a vagar pela chuva. Quando próxima da saída do beco, ela pode sentir. Fora um movimento. Suave e custoso como o de quem acabam de despertar do sono mais profundo. Mas fora um movimento. Diana estremeceu, parou e olhou para o gato. O movimento se repetiu. E de novo. E a cada repetição parecia menos custoso, ainda que não o deixasse ser por completo.
Diana sorriu e ergueu o gato até que ficassem cara a cara.Viu aqueles belos olhos felinos, cor de esmeralda, abrirem-se como se lutassem para isso e, pulou com vivacidade pueril ao ouvir o primeiro e frágil miado. Apertou-o contra o peito, afagando-o com sua felicidade e assim permaneceu até que se lembrou. Sua Semíramis Anabel a esperava e ela pela primeira vez, entendia o que era estar atrasada.
Os dedos pequeninos daquelas mãos delicadas trabalhavam com agilidade e destreza. Os olhos, um mel escuro e repleto de brilho, carregavam o dom do encanto, emoldurados por uma forma desenhada e pálpebras esticadas. Seus fios de cabelo, curtos e dourados, reluziam sobre o palco. Cada parte de seu corpo fluía com aquele som, tal como uma pétala dança ao vento e cada parte de seu corpo fruía daquele som, de uma forma contida e graciosa. Graciosa como a música que produzia. O piano ganhava vida, o silencio ganhava forma e a plateia ganhava e retribuía admiração. Os instrumentos que coadjuvavam a donzela compunham um cenário afável e harmonioso para a peça ser apresentada.
Eram as últimas notas do último movimento. Cada tecla expressava uma emoção crescente, cada nota fazia o coração da plateia repetir o seu ritmo. O talento da pianista proporcionava os sentimentos mais vívidos que a arte permitia. Quando a última nota dissipou-se no ar, a plateia ergueu-se de seus assentos e aplaudiu. Aplausos que brandiam euforia. E assim eles se mantiveram, muito mais do que o decoro exigia. Era a música com a qual a plateia tentava retribuir a musicista. Com este som ao fundo, ela curvou-se numa polida reverência, sorriu largamente com seus lábios finos e rubros e retirou-se do palco.
A pianista trancou-se em seu camarim. Este era imenso, finamente adornado, com decoração que ostentava as melhores madeiras, ouro, pedras preciosas, dentre outros objetos de significativo esplendor. O que não diferia da grandeza do resto do teatro. A Décima Musa era o seu nome. Homenageava a maior poetisa de Sororia que, enquanto viva, ia àquele lugar, na época uma praça, declamar as suas poesias e atraía incontáveis mulheres ao seu redor, de seguidoras a admiradoras, fora a maior artista do reino e ostentou o título que a equiparava a seres agraciados por um talento mitológico. E o Décima Musa era palco para as maiores artistas de Sororia. Quando estas o alcançavam, era certo de que percorreram um longo caminho. Com aquela musicista de olhos grandes e sorridentes, não fora diferente. Não neste aspecto, quero dizer, pois em todos os demais, sua história diferia completamente das outras artistas do Reino.
Mas a musicista não estava a desfrutar do luxo que a cercava. Olhava constantemente para a areia da ampulheta e, em sua cabeça, esta descia com pressa excessiva. Olhava pela janela. Via a chuva. E preocupava-se. Preocupava-se consigo, preocupava-se com a encarregada de buscá-la e preocupava-se com tudo, pois isto é o que pessoas que esperam com ansiedade por algo fazem de melhor.
O alívio veio com a batida que soava abafada no grosso vidro da janela. Ela apressou-se em abri-la. Apoiou-se em seu parapeito uma mulher de vestimenta encharcada pela chuva e castigada em algumas partes. Realizava os movimentos com dificuldade, em parte, pois sua aptidão física era limitada, sua função certamente era mais a nível social e intelectual e, em parte porque carregava em um de seus braços um felino de pelagem rajada, igualmente encharcado.
- Ora, Diana – protestou polidamente a pianista enquanto ajudava a outra -, o que justifica tal atraso? – olhou para o gato, confusa. – E o que faz com este gato?
- Perdoai-me, Vossa Majestade – implorava Diana ainda desajeitada pela sua entrada e pelo seu estado -, tive contratempos pelo caminho e estes não foram poucos. Sei que estou atrasada e não sou merecedora de tal assistência por parte da Altíssima Semíramis Anabel, mas veja este gato, precisa de cuidados imediatos...
- Por favor, Diana – interrompeu Anabel -, sabe que não suporto que logo você venha me tratar com tamanha polidez. Sou sua amiga antes de ser sua Semíramis.
- Bem – Diana riu embaraçada, mas descontraída -, neste caso, você poderia pegar uma toalha para eu enxugá-lo, por favor?
Anabel pegou uma toalha e a deu para sua criada. Tirou a peruca loira do topo de sua cabeça e os grampos que prendiam o cabelo, revelando fios de um liso negro que alcançava o fim de suas costas. Diana enxugava o seu gato cuidadosamente. O felino ainda parecia abatido, mas já estava consideravelmente melhor do que em outrora. Chegava a ronronar de forma discreta ao sentir a carícia dos movimentos de Diana.
- Agora me diga – Anabel inclinou-se em direção ao gato com um sorriso carinhoso -, onde o conseguiu?
- É ela – Diana abaixou a cabeça para admirar a gatinha junto a Anabel -, seu nome é Nala e eu a encontrei em um beco. Estava mal, Ana, pensei que não resistiria, mas desde que eu a segurei em meu colo pareceu melhorar. Tive de lhe dar do que comer, mas um motivo para o meu injustificável atraso. Se Vossa Alteza, minha Altíssima Semíramis, permitir...
- Você pode ficar com ela, Diana – a Rainha riu amigavelmente -, desde que pare de me chamar dessa forma.
A serviçal abriu um largo sorriso. Anabel afetuosamente acariciou a cabeça de Nala e, no instante em que se erguera de volta, a gata repentinamente pareceu encher-se da vida que antes lhe faltava e, em um salto tipicamente felino, agarrou-se em Anabel, furando o vestido da Rainha com as garras e, ronronando mais alegremente do que antes, cheirou o seu pescoço e deu uma leve mordida em sua orelha. Anabel primeiro assustou-se com o salto, em seguida, arrepiou-se ligeiramente com a mordida na orelha e aquela sensação a fez corar, embaraçada por reagir daquela forma, ainda que involuntariamente. Sem saber o que fazer, recuou como se tal recuo fosse afastá-la da bichana e acabou por tropeçar em uma pesada cadeira, para o divertimento de Diana que nada fazia para ajudá-la, apenas ria enquanto observava. Não satisfeita, Nala, que não se desprendera da Rainha durante o tombo, acariciava os seios da Semíramis sobre o tecido, esfregando o seu rosto. O que fora mais do que ela poderia suportar, teve de afastar a gata, mesmo que as unhas cravadas em sua roupa insistissem em ficar.
- Ora, me parece que ela gostou bastante de você, Vossa Alteza – gracejou Diana que, finalmente resolvera ajudar a Rainha trazendo Nala de volta para o seu colo, porém, sem antes deixar de provocá-la, ajeitando a veste desarrumada pela felina passando o indicador lentamente por sob o seu decote. Ainda aproximou seu rosto ao de Anabel, mudando a expressão de seu sorriso para um mais atiçador. – Acho que agora não sou mais a única.
- Pare de me chamar assim! – protestou a cada vez mais corada Anabel em um salto e retomou a postura, tentando a disfarçar o embaraço. – Temos de partir.
Os cômodos palacianos eram muitos, tal como eram amplos. Sua decoração espaçada passava uma ideia de grandeza ao ambiente que, neste momento, porém, era bastante inconveniente. Os passos de Anabel para atravessá-los sem ser notada eram apressados – note que o conceito de pressa para quem passara a vida em uma corte é um pouco distinto do das demais pessoas -, ela não devia ser notada. Já estava devidamente trajada, tal como Diana, mas, como era tradição em Sororia, toda Semíramis tinha ao seu lado uma Conselheira Real, que, além de diversas funções administrativas, era também incumbida de zelar pelo bem-estar e boa apresentação de sua Raínha e, esta não iria apreciar ver a líder de seu reino fora de seu cômodo já quando noite. Muito menos iria apreciar saber que ela saíra escondida de seu paço para realizar uma apresentação de piano. Tais coisas eram condenáveis perante o protocolo real por diversas razões, umas aceitavelmente plausíveis, outras nem tanto.
Anabel tinha ao seu lado, Diana, que a ajudara com o disfarce e o transporte. Para ajudá-la com a chegada discreta havia Micaela. Esta era a líder da guarda-real da Semíramis, a general entre as Amazonas. Era uma mulher de estatura respeitosa, o que se notava principalmente quando ao lado da Semíramis, devido ao contraste de uns bons centímetros, uma postura vigorosa e um par de olhos verdes que sempre mantinham a expressão de uma fera prestes a dar o bote em sua caça.
As três esgueiravam-se o quanto podiam, agindo como clandestinas em seu próprio castelo, com Micaela sempre à frente. Chegaram ao corredor pelo qual se distribuíam os aposentos da Semíramis e outros membros da nobreza, assim como convidados que possuíssem tal linhagem. Mobílias refinadamente trabalhadas, fina tapeçaria e quadros que remontavam às mais antigas dinastias de Semíramis - inclusive a primeira, que ainda utilizava o título de Rainha e passara adiante o seu próprio nome como símbolo da mais alta realeza - adornavam o espaço. Isto, porém, não lhes servia para discrição. Principalmente quando a Conselheira Real era como Ayako.
O nome, não diferentemente das pálpebras ainda mais esticadas do que as de sua Semíramis, indicavam uma origem distante. Sororia era conhecida por abrigar mulheres das mais diferentes nacionalidades, sem dar importância aos motivos pelos quais elas deixaram sua pátria, apenas as acolhia. Ao longo dos séculos etnias das mais diversas se fizeram presentes, sem que houvesse quaisquer discriminações ou distinções sociais, o que servira para atrair ainda mais estrangeiras. Sororia tornou-se o reino das mil cores e dos mil formatos de olhos.
As diferenças culturais que, em algum momento foram discrepantes, tornaram-se amenas com o tempo, todavia, ainda existiam. Ayako advinha de um reino oriental em que a rigidez disciplinar representava o caráter de uma pessoa e este traço nunca a abandou.
- O que faz a Altíssima Semíramis fora de seu aposento a esta hora? – perguntou Ayako, cujo senso do que se passava ao seu redor era mais aguçado do que as habilidades furtivas das três.
- Perdoai-me, Conselheira Real – reverenciou Micaela -, foi em decorrência de meu pedido que Sua Majestade, a Altíssima Semíramis, deixou seu aposento e acompanhou-me.
- E posso saber com que propósito? – o tom de Ayako soava bastante rabugento.
Micaela hesitou por um instante, balbuciando algumas palavras. Diana então tomou sua frente de modo afobado e convicto, o que deu um ar caricato àquela situação:
- Com este propósito! – Diana esticou os braços pondo Nala diante do rosto de Ayako. O felino tinha uma expressão de espanto, enquanto Anabel e Micaela entreolhavam-se incrédulas da efetividade de tal desculpa. A Conselheira olhou admirada para a gata por um tempo como se a analisasse após a surpresa. Em seguida, abriu um sorriso junto a um berro de empolgação, os olhos brilharam enquanto ela rapidamente tomou Nala das mãos de Diana e a abraçou como se fosse pelúcia. O ambiente ao redor de Ayako passou do escuro rabugento, para uma colorida alegria em um piscar de olhos. Anabel e Micaela continuavam incrédulas, mas agora de forma diferente, elas pareciam surpresas com a reação tão entusiasta da rígida Conselheira. Ao notar os olhares das demais, após alguns minutos tomada pelos encantos felinos, propagando palavras de ternura e felicidade, Ayako embaraçou-se, perdendo qualquer reação e depois tentando voltar a si, recuperando a pose rígida, tossindo discretamente e devolvendo Nala a Diana.
- Bem, de qualquer forma, isso ainda não foi uma explicação.
- Acontece que esta pobre gatinha foi encontrada por Micaela. De alguma forma ela adentrara o palácio, mas parecia ferida e cansada. Sabendo do carinho de nossa Altíssima Semíramis pelos animais, a muito honorável líder da guarda-real julgou importante comunicá-la de tal fato e, claro, com o seu coração nobre e puro, Vossa Majestade fez questão de verificar em que estado encontrava-se a gatinha.
A expressão firme de Ayako abrandou-se. Seus olhos reencontraram os de Nala e, por coincidência ou não, naquele momento, eles se tornaram repletos de doçura que inspiravam um sentimento de dó.
- Pois bem, se esta é a razão, eu a entendo, mas da próxima vez que algo assim ocorrer, eu quero ser comunicada antes que qualquer alteração na rotina de Vossa Majestade se dê.
- E você será, Ayako – disse Anabel em uma delicada reverência.
- Ainda assim, não me parece apropriado que Vossa Majestade mantenha um animal de estimação em seu quarto particular.
- Nala ficará sob os meus cuidados, Conselheira – afirmou Diana.
- Nala – disse como se apreciasse o nome recém-descoberto, associando-o à felina. – Se assim for, não terei objeções. Agora, vocês duas devem retornar imediatamente às suas funções e, Vossa Majestade, por favor, retorne ao seu aposento.
Diana e Micaela prontamente postaram-se em sinal de obediência, despediram-se e tomaram seus rumos. Anabel e Diana logo fizeram o mesmo e se encaminharam para os seus quartos. O corredor voltou à solidão e à penumbra que lhe era habitual a este horário. Mas tal estado não duraria mais do que alguns poucos minutos. Entre o silêncio e o suave estalar das tochas, escondia-se um discreto som de passos. Estes se moviam com destreza e calma. Muita calma. Aproximavam-se do quarto da Semíramis. Os passos precavidos foram tornando-se mais lentos. Puseram-se rentes à parede ao lado do quarto de Anabel e finalmente cessaram. Sua dona dobrou os joelhos, abaixando-se lentamente. A longa trança embutida de fios dourados já tocavam suas pontas no chão. Micaela então girou e inclinou o corpo, deixando um de seus olhos de caçadora espreitando a Semíramis pela fechadura.
Em seu quarto, Anabel preparava-se para deitar. Sem tomar qualquer conhecimento de que alguém a vigiava, ela afrouxou os nós da parte de trás de seu vestido, fazendo-o cair delicadamente pelos seus ombros, a alça deslizava pela maciez de sua pele, realçando a beleza das formas luxuriosas de seu corpo, era a exuberância sob os panos e estes cada vez menos lhe cobriam, mas mantinham-se ali, como relutantes em sair. Anabel sentou em sua cama e inclinou-se a frente para retirar os sapatos. O tecido precipitou-se levemente, revelando um decote de seios fartos e em seguida deteve-se, deixando-os parcialmente expostos e deixando-os de modo que pareciam querer se expor e, cada leve movimento era uma provocação, cada leve movimento continha uma falsa promessa de que iriam ser expostos.
O olhar de Micaela era fixo, imutável, desejoso, os lábios entreabertos davam passagem a uma respiração que acelerava de forma tímida, porém perceptível. A mão direita passeava pelo próprio corpo, como o uniforme curto e emplumado das amazonas permitia. Os dedos deslizaram por debaixo da saia. A visão que Micaela tinha a fazia sentir-se provocada pela beleza de sua Semíramis e, em sua imaginação, tais provocações eram satisfeitas.
Anabel levantou-se, ficou diante de um enorme espelho ao lado de sua cama e com toques discretos, pouco a pouco cada parte de seu corpo revelava-se. Os seios tão tentadores, as curvas que pareciam estar sendo finamente esculpidas enquanto desnudavam-se, a bunda, o proeminente ápice do desenho daquela escultura, chegando às coxas, grossas e de contornos torneados.
O toque de Micaela apressava-se a cada parte que era descoberta do corpo de Anabel. Sua respiração a acompanhava. Esforçava-se para inibir os primeiros gemidos que insistiam em sair de sua boca.
A Semíramis manteve-se estática. Ela contemplava o seu reflexo vítreo. Sua expressão era difícil de decifrar. Parecia admirar-se, parecia curiosa, parecia assustada, parecia tentada e receosa. Suas mãos percorreram o seu corpo como se estivessem a explorá-lo. De forma vacilante seguiu até o seu seio que mal se bastava em mão tão pequena. Acariciou-o brevemente e enrubesceu. Os lábios entreabriram-se de forma quase imperceptível. Ameaçava continuar as carícias, mas deteve-se.
A mão esquerda que apoiava Micaela escorregava pela porta. A direita trabalhava ininterrupta. Ela não podia ser encontrada ali acima de tudo. Seria o fim, não apenas da função de maior prestígio dentre as amazonas, mas seria o fim de sua reputação, de tudo o que ela havia provado a si mesma que era capaz. Poderia ser inclusive expulsa de Sororia. Mas todos estes pensamentos se apequenavam, davam lugar ao prazer, ao desejo. O desejo de ter o voluptuoso corpo de sua Semíramis para o seu desfrute. Os gemidos vinham e já não podiam ser calados, apenas abafados. Ajoelhada, as coxas erguiam-se e desciam, movimentando a cintura de acordo com o prazer.
Anabel deitou-se, mas sua expressão em nada mudara. Algo a inquietava. As mãos logo voltaram a explorar o corpo. Subiam e desciam por ele. E o ato tornou-se carícia. E a carícia, ainda que simples, levou à respiração ofegante. Esticava o tronco e as pernas, como se saboreasse cada instante, lentamente, arrepiava de leve, brincava com sua sensibilidade e deixando escapar um gemido, inclinou a cabeça para trás. Um segundo a mais e a Semíramis perderia o controle de seus atos. Mas este segundo não chegou. Repentinamente, deteve-se mais uma vez, agora, em um gesto mais abrupto, pegou a coberta e virou-se de lado.
Assistir sua Semíramis fraquejar diante de seus desejos daquela forma, porém, não iria deixar a cabeça de Micaela acalmar-se tão facilmente. Ela precisaria de mais. E o que ela precisava não estava distante. Suas coxas tremiam, agora, sem uma cena para saciá-la, deixou seu corpo largado sobre a porta, tirando os olhos da fechadura. A mão esquerda lutava para conter os gemidos. O prazer escorria em profusão pelas suas coxas, o movimento da cintura se ampliava. E então o gemido mais alto anunciava o ápice que aquela sensação poderia proporcionar ao seu corpo.
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